segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Sobre Arqueologia Subaquática e o Estudo de Naufrágios no Ceará

Naufrágio do Aterrinho, Fortaleza, CE


por Paula Christiny


Assuntos relacionados a afundamentos chamam a atenção e mergulhos turísticos para a visitação de embarcações naufragadas são umas das maiores atrações de agências de turismo subaquático que oferecem esse tipo de serviço. Os naufrágios despertam interesse por causa de relatos sobre aventuras fantásticas, navios afundados e grandes tesouros. Tragédias envolvendo embarcações também causam sentimentos de tristeza e afeição em virtude de relatos sobre vidas perdidas no mar.

Por outro lado, também avançam pesquisas no campo da Arqueologia Subaquática, ramo da arqueologia que faz estudo científico do passado humano através sítios arqueológicos submersos, muito diferente da predatória caça ao tesouro. A atuação dos estudiosos tem uma abordagem interdisciplinar, combinando os métodos de diversas áreas de estudo, incluindo a Antropologia, Química, Geologia, História, Arquitetura Naval, Oceanografia, Biologia e entre muitas outras. Os pesquisadores desse meio são os principais defensores desse patrimônio. Suas ações têm permitido o conhecimento e preservação de bens submersos importantes.

O que o ser humano produz, faz parte de sua vida. Embarcações é produto da ação do homem e trazem informações sobre diferentes aspetos da sua história. Através do estudo da arqueologia de naufrágios é possível conhecer sobre a relação da humanidade com mares e oceanos. Tem muito a contar um navio afundado. É possível entender por meio dos projetos arquitetônicos das embarcações, as características da construção naval da época. Seu formato mostra seus usos e apresenta sua tripulação. A própria narrativa do afundamento de uma embarcação é contada pelos seus restos.

É preciso saber sobre nossa responsabilidade na preservação do patrimônio histórico subaquático. A maior interação entre os estudiosos do assunto e mergulhadores viria fortalecer os esforços que buscam implementar políticas preservacionistas. Ou será que somente o que está em terra firme merece ser chamado de patrimônio cultural? Artefatos submersos têm igual valor e podem contribuir tanto quanto outros. Eles permitem a visualização de outras perspectivas do que conhecemos e podem trazer novos conhecimentos.
Devido à falta de conhecimento da população acerca de seus patrimônios histórico e arqueológico, há o abandono e deterioração dos mesmos. Dessa forma, eles são tratados como menos relevantes, ou até irrelevantes, recebendo menos atenção do que aqueles já reconhecidos como patrimônios culturais mais tradicionais.

Arqueologia Subaquática no Ceará?
O território cearense, dono de uma vasta faixa litorânea, é conhecido pela ocorrência de vários afundamentos de embarcações. Possibilidades se abrem para estudiosos do Ceará quando, os mesmos olham com maior sensibilidade para a Arqueologia Subaquática no Estado.

Em entrevista ao jornal Diário do Nordeste o Professor Marcelo Soares do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) informa que existem 76 naufrágios catalogados no Ceará, mas diz também que ainda existem mais a serem descobertos. Essa defasagem, segundo ele, se dá pelo fato de não haver especialistas em mergulho arqueológico e nem mesmo um curso de Arqueologia no Estado. A situação dos naufrágios no Ceará é grave diante da omissão do poder público na questão.
Curso realizado em 2012

Uma das poucas iniciativas relacionadas ao tema foi um curso de extensão em Arqueologia Subaquática promovido pelo INSTITUTO DE CIÊNCIAS DO MAR – Labomar da UFC, junto a Universidade Federal do Piauí (UFPI) e a operadora de mergulho Mar do Ceará. Infelizmente, tal evento ocorrido em 2012 não se repetiu.

Ainda, segundo informações do jornal Diário do Nordeste, não existe intenção de se criar na Universidade Federal do Ceará (UFC) um curso de graduação ou pós-graduação em Arqueologia, muito menos da Secretaria do Turismo (SETUR) em investir nesse setor, pois não existe demanda. Enquanto há essa falta de interesse e responsabilidade, casos de depredação vão acontecendo pelo Ceará.

Cabeços de Amarração
do Navio da Ponte
Um dos exemplos do total descaso do poder público foi o soterramento de uma embarcação conhecida como Navio da Ponte, que ficava próximo a Ponte Metálica, antigo porto de Fortaleza, durante a construção de um quebra mar que faz parte de um projeto de revitalização histórica da Praia de Iracema.
O reconhecimento de acadêmicos do Estado pelo tema levaria a uma maior compreensão sobre tais estudos e sua importância no entendimento do passado. Além disso, os resultados obtidos por estudiosos do campo, mostrados fora dos espaços das universidades, daria a oportunidade à sociedade de conhecê-los. E, principalmente promoveria a sensibilização da daquela acerca da causa.

Políticas Públicas
Felizmente, em outros lugares do Brasil já se encontram mais avançados projetos de pesquisa promissores. Foi criado em 2002 na UNICAMP, Campinas, o CENTRO DE ESTUDOS DE ARQUEOLOGIA NÁUTICA E SUBAQUÁTICA (CEANS), que busca o levantamento, estudo, divulgação, conscientização, gestão, proteção e preservação do patrimônio cultural náutico e subaquático brasileiro e internacional. O Centro lançou o Livro Amarelo, uma cartilha sobre arqueologia subaquática, um informativo feito em defesa do Patrimônio Cultural Subaquático brasileiro.

São urgentes políticas públicas de proteção para impedir maiores danos e que sejam apropriadas para garantir a preservação do mesmo. Além disso, é preciso dar oportunidade a população cearense de conhecê-lo. Tais medidas junto à interação da comunidade trariam o reconhecimento e preservação de artefatos submergidos, criaria também uma ética do turismo consciente, visto que ele depende diretamente da preservação do espaço.

Grandes resultados podem ser obtidos se houver interesse real dos estudiosos da História local. Os estudos do patrimônio subaquático vão além dos benefícios ligados a Universidade. A atenção dada a esses naufrágios e a posterior divulgação dada aos resultados obtidos, aliada a ações educativas poderão formar bases para que a população seja também uma defensora desse acervo.

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